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DEFININDO JUDAÍSMO MESSIÂNICO
Comitê de Teologia da UMJC
Verão de 2002
Comentário de Russ Resnik


Recentemente eu estava folheando o catálogo de uma importante fornecedora cristã de livros e me deparei com uma seção que ela havia nomeado de “Judaísmo Messiânico”. Havia poucos livros nesta seção, mas, a maior parte do seu espaço foi usada por uma boa seleção de talitot e kipot, toalhas para cobrir chalot, e castiçais, juntamente com uma oferta de pandeiros e shofars. Esta fornecedora pode ter simpatia pelo Judaísmo Messiânico, mas trata o movimento como um show de música e dança. Da mesma maneira todos nós podemos pensar num amigo barbudo, vestido quase todo de preto, o qual não foi criado num lar judeu, não possui ancestrais judeus e um mínimo de modo de vida judaica, mas ainda se denomina um “judeu messiânico”. No entanto, nós decidimos definir Judaísmo Messiânico, tanto nossos amigos quanto nossos detratores já estão formando definições próprias, com as quais nós não queremos conviver.

Mesmo à parte desta ameaça, no entanto, permanece nossa responsabilidade de nos definirmos a nós mesmos. Temos que dizer quem somos antes que outros possam nos ouvir corretamente, nos responder, e quem sabe juntar-se a nós. Quando tenho a oportunidade de falar a um novo auditório, percebo que devo contar um pouco da minha própria história antes de ganhar a atenção dela. Quando conto minha história, mesmo resumidamente, estabeleço quem sou e como reivindico qualquer direito de me dirigir a eles. Da mesma forma, no Judaísmo Messiânico temos que contar nossa própria história antes de ganhar um auditório com alguém além de nós mesmos. Além disso, temos que contar uma história que seja compartilhada pelos ouvintes, se quisermos desenvolver uma identidade comum e partir de um movimento religioso para uma comunidade verdadeira. Depois de três décadas como um movimento, ainda buscamos uma história compartilhada para termos uma identidade viável que podemos passar para a próxima geração. Chegou a hora de nos definirmos como judeus messiânicos.

Esta identidade comum e definida é o assunto da declaração do Comitê de Teologia. Comentarei brevemente, a declaração detalhada parágrafo por parágrafo, e farei dois adendos, o primeiro oferecendo uma definição elaborada do “ser judeu” em geral. E a segunda propondo um modelo para o envolvimento gentílico no Judaísmo Messiânico.

A vida judaica é vida numa comunidade concreta e histórica. Portanto, grupos judeus devem fazer parte totalmente do povo judeu, compartilhando sua história e sua responsabilidade pactual como um povo escolhido de D-us. Ao mesmo tempo, a fé em Yeshua também tem uma crucial dimensão pública. Esta fé une Judaísmo Messiânico e a Igreja Cristã Gentílica, que é a assembléia dos fiéis das nações que se juntam a Israel através do Mashiach. Juntos, Judaísmo Messiânico e a Igreja Gentílica, constituem um único Corpo do Mashiach, uma comunidade de judeus e gentios que em sua distinção progressiva e bênção mútua antecipa o shalom do mundo por vir.

Nossa história não é contada isoladamente, mas dentro do contexto de uma história maior. Fazer “parte totalmente do povo judeu” significa que no Judaísmo Messiânico contamos nossa história dentro de uma história judaica maior, como temos de fazer para sermos verdadeiros ao nosso chamado como um movimento judeu pelo Mashiach. Somos judeus não somente num sentido bíblico, mas também vivendo interativamente com a totalidade de nossa comunidade e tradição, a “comunidade concreta e histórica” sobre a qual este parágrafo trata. Estamos fazendo a declaração revolucionária de que estamos em casa na comunidade judaica quando nos identificamos com Mashiach. Não deixamos nosso povo, juntamo-nos ao que este parágrafo denomina “a Igreja Cristã Gentílica” e então retornamos para testemunhar do Mashiach, mas sustentamos este testemunho como parte do povo judeu de hoje que vive e respira.

Nossa identidade como seres humanos, começa com nossa criação à imagem de D-us, e alcança o cumprimento no Mashiach, como Dan Juster demonstrou no Fórum Teológico do ano passado. Tal identidade, no entanto, não remove as categorias de judeu e gentio. Nas Escrituras, como Rich Nichol diz, “a irreduzível díade da existência humana é Israel e as nações”. Esta díade permanece conseqüentemente dentro do Corpo do Mashiach. A “Igreja Cristã Gentílica”, assim como o povo judeu, é uma “comunidade concreta e histórica”. Não é uma abstração teológica, mas “a assembléia dos fiéis das nações que se juntaram a Israel através do Mashiach”. Estes dois grupos – a comunidade Judaico-Messiânica e a Igreja Cristã Gentílica – representam dentro do Corpo do Mashiach, Israel e as nações, os dois componentes de humanidade que são retratados por toda a Escritura.

Em seu estudo inovador The G-d of Israel and Christian Theology, R. Kendall Soulen fala da “economia de consumação de D-us”, isto é, o trabalho de D-us em tornar perfeitas a bondade e santidade de toda Sua criação, incluindo a humanidade. Este trabalho, escreve Soulen, “é essencialmente constituído como uma economia de bênção mútua entre aqueles que são e permanecem diferentes” (Minneapolis, Fortress Press, 1996 p.111). É para a glória de D-us que ambos os componentes da raça humana se encontram em mútua bênção dentro do Corpo do Mashiach, e ainda permanecem distintos. D-us é glorificado quando judeus praticam seu chamado ímpar e tradições mesmo quando eles honram crentes gentios como irmãos e irmãs no Mashiach. D-us é glorificado quando crentes gentios O servem como representantes de todas as nações lado a lado com um remanescente da nação sacerdotal de Israel.

Para um grupo de judeus messiânicos (1) cumprir a responsabilidade pactual incumbida a todos os judeus, (2) para sustentar o testemunho no Mashiach dentre o povo de Israel, e (3) servir como um autêntico e eficaz representante do povo judeu dentro do Corpo do Mashiach, ele deve colocar como prioridade a integração com o mundo mais amplo de judeus. Tal integração deve então ser seguida por um vital relacionamento associado à Igreja Cristã Gentílica.

A “prioridade na integração com o mundo judeu mais amplo”, pela qual esta declaração certamente proclama, poderia implicar numa separação do resto do Corpo do Mashiach. Mas, fazer uma tal inferência seria aceitar como axioma, a brecha entre Israel e Mashiach, e assumir que devemos escolher um ou outro. Ao contrário, adotamos ambos ao mesmo tempo, nos quais nosso “ser judeu” não contradiz nosso “ser messiânico”, mas, antes, é um veículo dado por D-us para expressá-lo. Como Mark Kinzer demonstrou, antes, no Fórum Teológico, Israel e o Corpo do Mashiach são qualitativamente categorias diferentes, portanto, eles não são de forma alguma mutuamente exclusivos ou contraditórios. Isto precisa tornar-se um novo axioma em nosso pensamento.

Somente se ignoramos o contexto bíblico da volta do Mashiach, em Israel, seríamos motivados a negar nossa total participação na história de Israel, ou a prioridade de “integração com o mundo judeu mais amplo”. Yeshua, afinal de contas é verdadeiramente o Mashiach judeu. Sua vinda e prometido retorno cumpre a esperança messiânica fundamentada nas Escrituras hebraicas e mantida pelo nosso povo por milênios. Na verdade, o Mashiach não entra na história isoladamente, mas no contexto da história dos judeus. Como Soulen escreve, “Fé no Evangelho pressupõe o antecedente propósito para a criação, um propósito ameaçado por poderes destrutivos, mas defendido por D-us na vida, morte e ressurreição de Jesus” (p.156). A Escritura começa, não com o Mashiach, mas com a criação, então pecado e exílio, em seguida a promessa de restauração, a chamada de Israel, a expansão da promessa e finalmente o aparecimento do Mashiach, “ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que D-us falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade” (Atos 3:21).

Quando o Mashiach aparece, como Stuart Dauermann mostra em um recente artigo em Desher (Do You See What I See? Edição 14, Inverno 2002, p.78), “Ele é primeiro o Mashiach de Israel, o qual indubitavelmente auto-identificado como judeu, e reconhecido como judeu por todos que O encontraram. Não se pode ter um Senhor da Igreja o qual não é primeiro, último e sempre Rei dos judeus. Ele não é simplesmente o Mashiach cósmico, o Filho do Homem sem uma pátria, o Salvador genérico, mas osso de osso judeu, carne de carne judia, o Santo de Israel, a Semente de Davi em quem somente todas as promessas para Israel e as nações são ‘Sim’ e ‘Amém’”.

O Mashiach exemplifica a identificação com Israel, contudo muitas vezes temos permitido que nossas diferenças com autoridades rabínicas ou costumes judaicos nos apartem da contínua história de Israel, como é o costume do super-facciosismo cristão. O Judaísmo Messiânico, corretamente compreendido, no entanto, é um claro oposto ao super-facciosismo; ele personifica a verdade de que D-us revelou-Se a Si mesmo e Seu propósito dentro da história do povo judeu e não precisa colocá-los de lado para levar à humanidade ao seu destino. Os judeus devem permanecer judeus quando eles crêem no Mashiach, não em um sentido técnico ou simbólico, mas na prática e em perspectiva, na vida familiar e em envolvimento na comunidade.

Rav Shaul faz duas declarações as quais também devemos manter, apesar da tensão inegável entre elas. Ele diz ambas: “eu sou um judeu, um fariseu, um hebreu de hebreus” (e isto muitas vezes), e “considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Mashiach Yeshua meu Senhor”. Nós não dicotomizamos nossa fé em Mashiach e nosso “ser judeu”; pelo contrário, defendemos a incomparável legalidade do Mashiach dentro do ambiente de tradição e vida judaica. Se acreditamos que a chamada de D-us e as promessas para Israel permanecem de fato, e buscamos restaurar esta verdade para o Corpo do Mashiach, então Israel permanece nossa comunidade, apesar da falha da liderança pública judaica em reconhecer Yeshua como Maschiach.

A maneira judaico-messiância de viver implica no esforço em cumprir o pacto de responsabilidade de Israel contido na Torah dentro do contexto do Novo Pacto. A halachah judaico-messiânica está arraigada na Escritura (nos escritos do Tanach e do Novo Pacto), a qual é a única santidade e autoridade. No entanto, também extrai, da tradição judaica, especialmente aquelas práticas e conceitos que têm ganhado quase que aceitação universal dos judeus devotos através dos séculos. Além disso, como a maioria dos outros troncos do Judaísmo, o Judaísmo Messiânico reconhece que a halachah deve ser tanto dinâmica quanto fiel, pois implica na utilização da Torah a uma variedade mais abrangente de situações e circunstâncias variáveis.

A halachah é um sinal de que levamos a sério a responsabilidade pactual. A vida de obediência não acontece simplesmente, mas requer esforço comum deliberado. Esta compreensão é o fator-chave que define o Judaísmo Messiânico como uma forma de Judaísmo mais propriamente do que um subgrupo judaico dentro da igreja. A discussão popular e aplicação da Torah para os detalhes do dia a dia é uma iniciativa unicamente judaica. Alguns contrastariam a ênfase cristã na direção do Espírito com a direção desta norma popular. Mas um processo judaico-messiânico haláchico buscará a direção do Espírito mesmo que adote a responsabilidade humana para encaixar a instrução divina numa comunidade específica.

A palavra mais importante neste parágrafo pode ser “tentativa”. Reconhecemos a inovadora natureza do Judaísmo Messiânico quando o prevemos. Para falar de halachah nesta etapa é prescritivo ao invés de descritivo. Mas temos que assumir a responsabilidade pela halachah, se quisermos desenvolver um Judaísmo genuíno que possa ser passado para as próximas gerações. “R. Tarfon diz: O dia é curto, a tarefa é grande, os trabalhadores são preguiçosos, a recompensa é grande e o Mestre é insistente. Não se espera que você termine o trabalho e ainda não esteja livre para escapar dele” (Pirke Avot 2:15-16).

O Judaísmo Messiânico adota a integridade das realidades do Novo Pacto disponíveis através de Yeshua, e busca expressá-las em formas extraídas da experiência judaica e acessíveis ao povo judeu.

Reconhecemos que todos os Judaísmos são, em certo sentido, messiânicos. Michael Wuschogrod vai mais longe quando escreve: “O Judaísmo autêntico deve ser o Judaísmo Messiânico. O Judaísmo Messiânico que leva a sério a crença que a história dos judeus, apesar de tudo o que tem acontecido, é o prelúdio a um ato extraordinário de D-us cuja história chegará ao seu ápice e a reconciliação entre D-us e o homem, e entre o homem e o homem se concretize” (The Body of Faith, Northvale, NJ: 1996, pp.254-255).

Em que sentido, então, somos únicos dentro dos Judaísmos? Primeiro, porque nossa esperança messiânica está centralizada em Yeshua de Nazaré. E, segundo, porque somos a presença do Judaísmo Messiânico. Nós fazemos parte da inacabada história de Israel, mas nosso Mashiach já apareceu. Ele é as primícias de tudo o que está por vir, e permanece presente entre nós através do Seu Espírito. Isto é o que nos distingue dentro do Judaísmo: a atividade e vida do Espírito em nosso meio, uma imanência do divino e curas evidentes, palavras, visões e poder. Pelo Espírito, a justiça e a paz da era por vir já estão sendo estabelecidas em nosso meio. Tais condições criam uma comunidade de fé que se torna uma opção viável para o povo judeu.

Aguardamos a mesma esperança messiânica como todo o Israel. Por esta razão, participamos totalmente no ciclo anual e nas orações do sidur, os quais estão repletos de expectativa messiânica. Clamamos com nosso povo pela restauração de Israel e redenção por vir. Nossa diferença é que clamamos por meio do Mashiach para experimentarmos um pouco, nesta era, daquela redenção antes que ela venha em plenitude na era por vir.

Para falar do Judaísmo Messiânico como uma ramificação ou forma do Judaísmo, implica numa visão pluralista do Judaísmo que alguns acham problemática. Mas, vermos a nós mesmos como um Judaísmo não nega um único clamor pelo Judaísmo Messiânico, por causa da presença do Mashiach em nosso meio. Simplesmente expressa respeito pelas outras formas, desde que reconheçamos que D-us esteja trabalhando nelas. Não pretendemos suplantar outros Judaísmos, ainda que afirmamos ter encontrado o Mashiach o qual eles ainda estão esperando. Além disso, definirmos a nós mesmos dentro do Judaísmo e do povo judeu é essencial para uma verdadeira intercessão, pois o intercessor deve identificar-se com aqueles por quem intercede. Podemos pensar em Moisés, que recusou se distanciar de Israel, mesmo depois do bezerro de ouro; de Jeremias, que foi com o restante desobediente para o Egito; ou de Rav Shaul, que escreveu: “porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado do Mashiach, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne” (Romanos 9:3). Mantemos uma identidade judaica porque somos solidários com nosso povo, e esta solidariedade não diminui porque estamos também no Mashiach.

Abraham Joshua Heschel colocou um desafio diante de nós há quase meio século atrás: “Para nós judeus, não há comunhão com D-us sem a comunhão com o povo de Israel. Abandonando Israel, abandonamos D-us” (G-d in Search of Man, New York: Farrar, Strauss, e Giroux, 1976, p.423). É claro que no Mashiach Yeshua, foi gratuitamente restabelecida a nossa comunhão com D-us. Se mantivermos nossa solidariedade com Israel pelo Mashiach, temos ambos: Israel e Mashiach. Se ficarmos fora da comunhão com Israel, mesmo proclamando o Mashiach para Israel, perdemos nossa parte na chamada de Israel, nossa posição intercessória em prol de Israel e das nações, um aspecto significante do eterno propósito de D-us.

Quando imaginamos nossa principal comunidade sendo a igreja invisível, precisamos definir a nós mesmos dentro desta mesma igreja pela nossa “qualidade de judeu”, mas quando nossa comunidade de referência é Israel – nosso povo judeu e suas tradições – definimos nós mesmos dentro daquele ambiente pela nossa lealdade ao Mashiach. É muito mais constrangedor ao povo judeu, o qual fomos chamados para servir, e muito mais biblicamente coerente, colocarmo-nos dentro de Israel pelo Mashiach, do que dentro de uma igreja visível pelas nossas raízes judaicas.



DEFININDO JUDAÍSMO MESSIÂNICO

Comentário de Russ Resnik


Adendo 1. O que queremos dizer com “judeu”?

O Comitê Teológico da U.MJ.C (União das Congregações Judaico-Messiânicas) define Judaísmo Messiânico como um movimento congregacional judeu pelo Mashiach: Judaísmo Messiânico é um movimento de congregações e comunidades judias comissionado a Yeshua, o Mashiach, que segue a responsabilidade pactual da vida judaica e identidade arraigada na Torah, expressa em tradição, e aplicada no contexto do Novo Pacto.

Uma vez que o adjetivo “judeu” aparece duas vezes nesta declaração básica e está claramente no coração de nossa auto-definição, devemos definir o que queremos dizer com o termo. Tal definição talvez não alcance uma finalidade teológica, mas na prática, seria clara e útil para a mais abrangente auto-definição do Judaísmo Messiânico.

Pode ser útil começar separando duas distorções modernas do termo “judeu”.
1. Judeu como uma categoria religiosa.
Obviamente, a qualidade de ser judeu tem espantosas implicações religiosas, mas é um erro modernista ver “o ser judeu” principalmente como uma questão de identificação religiosa. Há muita confusão nos círculos judaico-messiânicos sobre esta questão. Às vezes, não-judeus adeptos começam a chamar a si mesmos de judeus porque eles cultuam num contexto judaico. Em vez disto, diríamos que o Judaísmo em toda sua extensão e diversidade é a religião do povo judeu, mas aquela adesão aos ensinos e práticas do Judaísmo não faz de alguém um judeu. E aquele que é judeu e rejeita os ensinos e práticas do Judaísmo, contudo, permanece judeu. O Judaísmo, como religião, está ligado a ser judeu, mas não é sinônimo dele.
2. Judeu como uma categoria racial.
Esta é uma outra distorção moderna, uma com um fruto ainda mais amargo do que o primeiro. As Escrituras falam de nações, tribos, povos e línguas (p.ex.: Apocalipse 7:9), isto é, sub-grupos unidos da humanidade, mas não de raça no sentido moderno biológico. O termo “sangue” não é geralmente ouvido em discussões contemporâneas: “sangue judeu corre em minhas veias”. “Ele é judeu de sangue puro”. Na verdade, tal terminologia não poderia ser usada porque as Escrituras vê toda a humanidade como um (ou um sangue; Atos 17:26 em alguns manuscritos) e manifesta em muitos povos (ethnoi em grego; goyim em hebraico). Vemos no mundo judaico contemporâneo uma grande diversidade de “raças”.

A qualidade de ser judeu, portanto, é melhor compreendida como qualidade de ser membro em um povo. Esta definição pareceria grifar a linguagem de Shaul em Filipenses 3:4-5: “Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus...”.

Michael Wyschogrod em The Body of Faith (Northvale, NJ: Jason Aronson, 1996, pp.56-57,67) denomina este “ser membro em um povo” uma “identidade de família”.

O Judaísmo não é um conjunto de crenças, não obstante este termo seja assim amplamente interpretado. Uma definição completa de Judaísmo, implica, é claro, num todo complexo de idéias, crenças, valores e obrigações atribuídas pelo Judaísmo... Mas, por mais decisivos que sejam, eles são, num sentido, mais uma super-estrutura do que um alicerce. O alicerce do Judaísmo é a identidade de família do povo judeu como descendentes de Abraão, Isaque e Jacó. Qualquer coisa que seja acrescentada a isto deve ser vista como um amadurecimento e relacionado à identidade básica do povo judeu como a semente de Abraão eleita por D-us por meio da linhagem de Abraão. Este é o ponto crucial do mistério da eleição de Israel... Elegendo a semente de Abraão, D-us criou um povo que está a Seu serviço na totalidade de sua humanidade e não somente em sua existência moral e espiritual.

Tal compreensão é particularmente útil para desenvolver uma definição prática de Judaísmo Messiânico porque o pensamento judaico já desenvolveu seus limites de membresia no povo judeu. Podemos construir nossa própria definição e atuar dentro destes limites existentes, instruídos pela nossa leitura das Escrituras.

O significado principal da qualidade de ser judeu, então, é um nascimento judeu. Tradicionalmente, aquele que é nascido de mãe judia. O Judaísmo Messiânico decidiu concordar com a Reforma Judaica, que diz que aquele que descende tanto de pai ou mãe judia, é isso que faz alguém judeu, se alguém mantiver alguma conexão com a comunidade e prática judaicas. Este tratamento, embora não seja oficialmente sancionado, parece ser quase universal em nosso meio, e está de acordo com os exemplos fornecidos pelas Escrituras. Ele revela dois outros aspectos da qualidade de ser judeu:

Primeiro, a qualidade de ser judeu é fazer parte da comunidade. Uma definição estritamente religiosa é defeituosa porque inclina-se a ver identidade principalmente em termos individuais. Nesta interpretação, um indivíduo gentio pode se tornar judeu porque decidiu seguir os costumes judaicos. Desse modo vemos as congregações auto-denominadas “Judaico-Messiânicas” sem nenhum membro judeu e nenhuma ligação real com sua comunidade judaica local. Ao contrário, eles consistem num grupo de indivíduos que decidiram adotar uma forma de Judaísmo que obtêm das Escrituras e um conhecimento superficial de fontes judaicas isoladas da comunidade judaica existente.

A qualidade de ser judeu, no entanto, sempre deve significar ligação com a comunidade judaica mais ampla e sua vida. Não se pode fazer parte do povo judeu e ao mesmo tempo negligenciar completamente os limites comunitários judaicos e auto-definições. A declaração apresenta bem este ponto: A vida judaica é vida numa comunidade concreta e histórica. Portanto, os grupos judaico-messiânicos devem fazer parte integralmente do povo judeu, compartilhando sua história e sua responsabilidade pactual como povo escolhido por D-us.

Talvez sejamos capazes de estender os limites e auto-definições com base em nossa particular leitura das Escrituras (assim como os reformados, por exemplo, os estendeu em seu envolvimento com o mundo moderno), mas não podemos negligenciá-los.

Segundo, a qualidade de ser judeu tem continuidade. Um judeu é alguém nascido pelo menos de uma mãe ou pai judeu, herdeiro de uma linha de identidade judaica por gerações, mesmo se aquela linha tenha se tornado fina em décadas recentes. Uma vez que a identidade judaica não é racial, a descoberta de ancestrais judeus não representa um judeu, a menos que haja algum tipo de identificação contínua. Alguém que descobre um ancestral judeu e se sente atraído a se identificar com o povo judeu devia ser encorajado a aprender e crescer em conhecimento e costumes. Pode vir o tempo quando teremos, dentro do Judaísmo Messiânico, um ritual de retorno à qualidade de ser judeu. Mas sem alguma forma de ritual e reconhecimento público, tal indivíduo simplesmente descreveria a si mesmo como tendo ancestral judeu e um amor pelo povo judeu, não sendo ele mesmo judeu.

Isto levanta a questão da conversão ao Judaísmo. As Escrituras claramente fornece um modelo para aqueles de fora do povo judeu se tornar parte do povo, e cria um precedente para um ritual de conversão por meio da circuncisão. Se desenvolvemos ou não, tal ritual dentro de nossos próprios círculos, devemos reconhecer sua validade no mundo judaico mais amplo. Se buscamos fazer parte do povo judeu, devemos aceitar as normas gerais de conversão prevalecentes dentro da comunidade judaica. Assim, como todas as formas de Judaísmo, vemos um convertido, seja no contexto da Reforma, Conservativo, ou Ortodoxo, como um judeu, e sua descendência normalmente como judia.

Esta norma geral para o significado da qualidade de ser judeu cobre a maior parte dos casos no mundo real. Sempre haverá exceções, e aqui novamente precisamos nos comportar como uma forma de Judaísmo. Os indivíduos com reivindicações ou questões referentes à identidade judaica precisam ser encaminhados à liderança pública de nossas congregações. A questão da identidade judaica não é o tipo de questão que alguém resolver por si mesmo. Nem em ocasiões mais difíceis, é algo que um líder individualmente pode resolver. Aqui precisamos providenciar liderança rabínica pública para conduzir os membros da família do Judaísmo Messiânico.

Adendo 2. Um modelo para a participação de gentios no Judaísmo Messiânico.


Se visionamos o Judaísmo Messiânico como um movimento judaico por Yeshua, ou até mesmo como uma forma de Judaísmo, então como entendemos a presença de muitos gentios comissionados e contribuintes em nosso meio? Proponho que Ahavat Yisrael – amor por Israel forneça o melhor modelo pela total participação no Judaísmo Messiânico.

Michael Wyschogrod escreve: “O amor infinito, eterno e absoluto do Senhor por Israel... é o tema central da Bíblia. Nada mais enfim importa. Tudo deve ser visto em sua luz. Só porque é verdadeira tudo o mais é verdadeiro. (Body of Faith, p.118).

Em contraste, alguém pode afirmar que o Mashiach, e não o amor de D-us por Israel é “o tema central da Bíblia”. No entanto, num sentido, ambas afirmações estão erradas. Tanto Ahavat Yisrael (o amor infinito do Senhor por Israel) quanto à promessa do Mashiach, devem ser entendidos dentro da história bíblica mais ampla começando na Criação. O propósito de D-us de redenção é revelado tão logo Ele chama por Adão que está escondido no jardim: Eyeka – onde está você? Vai adiante com a eleição de Abraão, Isaque e Jacó e alcança um ápice com o Êxodo do Egito e a entrega da Torah. A compreensão da redenção se expande nos profetas de Israel, e alcança o ápice mais alto com a chegada do Mashiach. A redenção final, a consumação do propósito original de D-us na criação, aguarda o retorno do Mashiach. Dentro deste contexto mais amplo, os dois temas – Ahavat Yisrael e a vinda do Mashiach – são totalmente compatíveis.

Mas, Ahavat Yisrael não fala somente do amor de D-us por Israel, pelos judeus que vivem ao nosso redor. Crentes dentre os gentios podem compartilhar neste aspecto de Ahavat Yisrael também, e este compartilhar é a chave para a frutífera participação de gentios no Judaísmo Messiânico. Ahavat Yisrael, mais do que qualquer outro exemplo descreve a chamada de gentios dentro do Judaísmo Messiânico.

Vamos refletir brevemente sobre três tipos de exemplos do envolvimento de gentios. Se compreendidos apropriadamente e praticados, cada um destes pode fornecer direção proveitosa, mas cada um está sujeito a muita distorção e não é apropriado como uma motivação principal.

1. Evangelismo de judeus.
O Judaísmo Messiânico deve dar testemunho de Yeshua como Mashiach dentro do mundo judaico mais amplo e normalmente procurará buscar influenciar outros judeus para a fé em Mashiach. Na verdade, o futuro do nosso movimento depende de atrair novos adeptos judeus. No entanto, nossas congregações não podem ser meras plataformas para evangelismo, mas devem ser expressões judaicas públicas genuínas pelo Mashiach dentro da comunidade judaica mais abrangente. Se Yeshua é o Mashiach judeu, então deve ser um meio em que seus seguidores possam testemunhar com integridade ao povo judeu, apesar de séculos de abuso e mal-entendidos. Os gentios que desejarem proclamar as boas novas do Mashiach ao povo judeu devem amar Israel, devem ser sensíveis à dor da interação com o Cristianismo, ao longo dos milênios. Na verdade, só Ahavat Yisrael, não o zêlo evangelístico, encontrará um caminho para proclamar Yeshua como Mashiach que não dilacera as almas e as famílias judias. Ver a congregação judaico-messiânica como um posto missionário distorce nosso divino chamado para construir comunidades judaicas pelo Mashiach, mas, os membros gentios motivados pelo amor ao povo judeu podem ter um papel vital na construção de tais comunidades.

2. União de judeus e gentios no Mashiach.
Definindo Judaísmo Messiânico declara que a união judaico-gentílica no Mashiach é melhor expressa socialmente como congregações judaico messiânicas edificadas em profundos relacionamentos com igrejas gentílicas. Congregações judaicas e gentílicas dentro do Corpo de Mashiach mais extenso, em sua distinção contínua e bênção mútua antecipam o shalom do mundo por vir. Procurar antecipar este shalom dentro de uma congregação judaico-gentílica local diminuirá a “distinção contínua” entre judeu e gentio que é necessária para a “bênção mútua”. Os gentios com certeza são bem-vindos dentro das congregações judaico-messiânicas e muitas vezes essenciais à tarefa de construir estas congregações, mas as congregações permanecem judaicas, não expressões de “um homem novo” que não é nem judeu nem grego. Muito de suas vidas tem base não só nas Escrituras ou em preceitos universais para todos os crentes, mas em ensinamentos e tradição judaicos. Os gentios motivados pelo Ahavat Yisrael participarão nas congregações judaico-messiânicas nestes termos.

3. Retorno a Torah.
Não é a missão do Judaísmo Messiânico chamar gentios para a Torah e raízes judaicas. Na verdade, a promoção de raízes judaicas (dependendo do que se queira dizer com esta frase) poderia diminuir o único lugar de Israel no plano de D-us. A Torah permanece um vivo e relevante documento para todos os crentes, judeus e gentios, mas muitas de suas peculiaridades são planejadas somente para Israel. Judeus messiânicos devem se apropriar da rica tradição da Torah, não necessariamente porque esta tradição é ordenada para todos os crentes, mas porque nós somos judeus. Os gentios podem ser motivados a participar nesta tradição por amor a Israel e ao D-us de Israel, mas eles devem ter cuidado para confirmar o relacionamento único de Israel para a Torah. As Escrituras descrevem Israel como um povo chamado para permanecer distinto – “eis que é povo que habita só, e não será reputado entre as nações” (Números 23:9, VRA). Muito da Torah é dado para expressar e preservar distinto destino de Israel. Um movimento de raízes judaicas que não é cuidadoso para respeitar a distinção entre judeus e gentios pode obstruir o propósito de D-us para ambos. E pode perder o ponto de focalização do Novo Pacto – a presença redentora do Mashiach nesta era por meio do Seu Espírito.

No fórum do ano passado, Jerry Feldman propôs esta questão: “Qual é a chamada de um gentio na congregação messiânica?” Ele respondeu com o que corresponde a descrição de Ahavat Yisrael:

Não estou pedindo a não-judeus a se tornarem judeus. Pelo contrário, considero nossas crianças judias crescendo com uma identidade judaica nos propósitos de D-us como o remanescente de Israel. Qualquer coisa que diminuísse a fidelidade de D-us, a qual salvou Israel, que é o emblema desta fidelidade, teria conseqüências sérias. Obviamente os gentios não deveriam ser, fazer ou esperar qualquer coisa que diminua nossa responsabilidade como judeus. Os comentários às vezes sugerem que “somos judeus demais”, ou que “deveríamos cultuar mais no Espírito” (enraizados numa expectativa cultivada mais pela igreja local do que pelas fontes bíblicas judaicas)... Ruth nunca teve estas críticas e exigências quando ela disse: “Seu D-us será o meu D-us; o seu povo será o meu povo”.

Este amor sacrificial por Israel está arraigado no próprio amor de D-us por Israel, descrito na bênção que precede o Shema matinal: Com amor abundante tem nos amado, SENHOR, nosso D-us; com mui grande misericórdia tem compadecido de nós... Tem nos escolhido dentre cada povo e língua. E tem nos trazido para perto do Teu grandioso Nome sempre na verdade, para oferecermos ações de graças a Ti, e proclamar Tua unidade com amor. Louvado seja, SENHOR, Que escolhe Teu povo Israel com amor (do Sidur Artscroll).

Ahavat Yisrael como motivação principal não diminui a participação gentílica no Judaísmo Messiânico, mas o eleva, pois é a participação no próprio amor de D-us pelo Seu povo. Este amor nos atrai a todos – judeus e gentios igualmente – no serviço mútuo encarnado pelo próprio Mashiach. Os gentios no Judaísmo Messiânico não estão aqui por eles mesmos, mas pelo próprio povo do Mashiach, que tem sido ferido em Seu nome por outros gentios. E os judeus no Judaísmo Messiânico também não estão aqui por eles mesmos, mas devem aceitar a rejeição e incompreensão que o Mashiach suportou no meio do Seu próprio povo. Juntos, judeus e gentios no Judaísmo Messiânico têm o raro privilégio de incorporar a vida sacrificial do Mashiach que proclamamos.
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